Mais informação nem sempre produz uma decisão melhor. Sob a perspectiva de Haroldo Augusto Filho, executivo com atuação em negociação empresarial, gestão de conflitos e estruturação de soluções em ambientes corporativos complexos, o problema muitas vezes está na qualidade do caminho que leva à escolha, e não na quantidade de dados disponíveis. Quando cada participante chega com um critério próprio, o mesmo fato produz conclusões diferentes, e a divergência passa a ser confundida com falta de informação.
A origem do problema tem nome na literatura sobre decisões: ruído, que é a variação indesejada entre julgamentos que deveriam ser parecidos. Duas pessoas competentes, diante do mesmo problema, chegam a respostas distantes porque o humor do dia, a ordem em que ouviram os argumentos ou a pressão do momento pesaram mais do que o critério. As respostas abaixo tratam das formas de reduzir essa variação em processos decisórios de maior complexidade, começando pelas que dependem apenas de método.
O que é ruído em um processo decisório e por que ele passa despercebido?
Ruído é a dispersão entre julgamentos que, em tese, seguiriam o mesmo critério. Ele difere do viés, que é um desvio sistemático em uma direção, como o otimismo excessivo de quem projeta resultados. O ruído não tem direção fixa: aparece quando a mesma situação recebe tratamentos distintos conforme quem decide, o momento ou o contexto. Por isso é tão difícil de enxergar. Cada decisão, isoladamente, parece razoável, e só a comparação entre várias revela a inconsistência.
Em empresas, o ruído costuma se esconder atrás de justificativas bem construídas. Uma área aprova um investimento com base em um conjunto de argumentos, e outra rejeita um pedido semelhante com argumentos igualmente sólidos. Ninguém errou de maneira evidente, mas a organização passou a mensagem de que o resultado depende de quem avalia. Na avaliação de Haroldo Augusto Filho, o primeiro passo para tratar o problema é torná-lo visível, comparando decisões parecidas tomadas em momentos e por pessoas diferentes.
Como estruturar uma decisão para que ela dependa menos de quem decide?
A resposta mais direta é definir os critérios antes de olhar as alternativas. Quando os critérios surgem depois, tendem a ser ajustados para justificar a opção que já agradava. Listar com antecedência o que importa na escolha, como custo, prazo, risco e impacto sobre as partes envolvidas, e atribuir a cada item um peso aproximado, obriga o grupo a discutir valores antes de discutir preferências. A conversa fica mais lenta no começo e muito mais objetiva no restante.
Outra prática é separar a coleta de opiniões da etapa de debate. Em reuniões de diretoria, por exemplo, o primeiro a falar costuma ancorar o rumo da discussão, e os demais ajustam suas posições à dele. Pedir que cada participante registre seu julgamento por escrito antes da conversa preserva a independência das avaliações e mostra, de imediato, onde há divergência real. Quando as respostas coincidem, a decisão avança sem teatro. Quando divergem, o grupo sabe exatamente o que precisa esclarecer.

Convém ainda dividir um problema grande em partes avaliadas separadamente. Julgar uma proposta como um todo favorece a impressão geral, que é a porta de entrada para o ruído. Avaliar cada dimensão isoladamente, com a mesma régua para todas as alternativas, produz um conjunto de notas que só depois são reunidas. O raciocínio fica rastreável, e qualquer pessoa consegue refazer o caminho até a conclusão.
Como Haroldo Augusto Filho vê a divergência de interesses no ruído das decisões?
Em ambientes com disputa, o ruído ganha um aliado: o interesse de cada lado. Pessoas em desacordo avaliam as mesmas informações de maneira diferente porque cada uma procura confirmar a própria posição. No entendimento de Haroldo Augusto Filho, o cuidado nesses casos é distinguir o que é divergência de fato do que é divergência de interesse, já que cada uma pede um tratamento diferente. A primeira se resolve com dados e critérios comuns, e a segunda exige uma negociação sobre o que cada parte precisa preservar.
Em reuniões de decisão com posições opostas, uma condução neutra ajuda a manter o foco. Quem organiza a conversa sem ter posição sobre o resultado consegue lembrar o grupo dos critérios combinados quando a discussão se desvia para preferências pessoais. O efeito prático é uma deliberação menos dependente do humor das partes e mais apoiada em regras definidas de antemão. A condução neutra não elimina o desacordo, mas o desloca para um terreno em que ele pode ser tratado com método.
Há também o risco do excesso de reuniões. Cada rodada adicional de debate, sem critério novo, tende a repetir os mesmos argumentos e a aumentar a fadiga, o que piora a qualidade do julgamento. Em operações de grande porte, vale estabelecer de início quantas rodadas o processo comporta e que tipo de informação justifica reabrir uma questão.
Como saber se o processo realmente ficou menos ruidoso?
A medida mais confiável é a consistência: casos semelhantes devem receber respostas semelhantes. Uma empresa pode testar isso apresentando a mesma situação a diferentes avaliadores e comparando os resultados. Se a distância entre eles for grande, o processo ainda depende demais de quem decide. Repetir o teste depois de adotar critérios definidos e registros por escrito mostra se houve melhora concreta, sem depender de impressão.
Conforme detalha Haroldo Augusto Filho, o registro das decisões cumpre um papel que vai além da memória. Ao anotar os critérios usados, as alternativas descartadas e as razões do descarte, a organização forma um acervo que serve de referência para escolhas futuras. Um acervo assim reduz a chance de que um problema já enfrentado seja tratado de modo completamente diferente na vez seguinte.
Nenhuma decisão complexa será livre de variação, e talvez a pergunta mais útil seja outra: qual nível de variação a organização consegue tolerar e conhecer? O objetivo é reduzi-la até esse ponto, trocando a sensação de acerto por um processo que se possa examinar. Decidir bem é mais uma disciplina de método do que um dom individual, e disciplinas se aprendem, se testam e se aperfeiçoam com o tempo.

