Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação no mercado financeiro, crédito estruturado e gestão corporativa, aponta que, nos últimos anos, o comprometimento da renda das famílias com dívidas voltou a bater recorde no Brasil, em meio a juros altos e inflação persistente. Esse número não fica só na estatística, pois muda, na prática, o que as pessoas decidem comprar e quando decidem comprar.
Dados do Banco Central mostram que as famílias brasileiras chegaram a destinar cerca de 29% da renda mensal só para pagar dívidas, o maior patamar desde o início da série histórica em 2005. Pesquisas do comércio também apontam que mais de 80% dos lares carregam algum tipo de dívida atualmente, um recorde para essa série de pesquisas.
O que os números do Banco Central mostram sobre o orçamento das famílias
Pedro Daniel Magalhães pondera que o comprometimento de renda funciona como um teto invisível sobre o consumo, mesmo quando o salário formal permanece o mesmo de antes. Cada parcela nova que entra no orçamento reduz o espaço disponível para qualquer compra que não seja essencial, inclusive aquelas planejadas há mais tempo.
O efeito aparece primeiro nos itens de maior valor, como eletrodomésticos, móveis e viagens, que costumam ser os primeiros a sair da lista de compras quando o orçamento aperta de forma mais séria. Compras do dia a dia, como alimentação e combustível, seguem acontecendo, ainda que muitas vezes parceladas no cartão em várias vezes ao longo do mês.
Por que o cartão de crédito virou o principal vilão do orçamento?
Boa parte desse endividamento, destaca Pedro Daniel Magalhães, passa pelo cartão de crédito, presente em mais da metade das famílias que hoje carregam algum tipo de dívida. O parcelamento de compras do cotidiano e o uso do rotativo, quando a fatura não é paga por inteiro, alimentam esse ciclo mês após mês.

O rotativo do cartão cobra taxas que ultrapassam quatrocentos por cento ao ano, entre as mais caras de todo o mercado de crédito brasileiro. Uma vez que a família entra nesse ciclo, boa parte da renda futura já nasce comprometida antes mesmo de chegar ao bolso no início do mês seguinte.
Como a prioridade de compra muda quando a renda já está comprometida?
Diante desse cenário, o consumidor tende a trocar marcas conhecidas por opções mais baratas, adiar a troca de aparelhos que ainda funcionam e pesquisar mais antes de fechar qualquer compra parcelada. A decisão de compra deixa de ser só sobre gosto e passa a levar em conta o espaço que sobra no orçamento do mês.
O movimento, evidencia Pedro Daniel Magalhães, aparece com força em setores como vestuário, eletrônicos e lazer, justamente os que dependem de renda disponível além do essencial. Já setores ligados à alimentação e saúde tendem a sentir bem menos esse efeito, mesmo em cenários de aperto generalizado no restante do orçamento.
O que isso significa para quem vende e para quem concede crédito?
Para o varejo, esse cenário exige repensar prazos, ticket médio e a própria oferta de produtos, priorizando opções de entrada mais acessíveis e formas de pagamento mais flexíveis para o cliente final. Para quem concede crédito, o comprometimento de renda já existente do cliente se torna informação tão importante quanto o histórico de pagamentos ao decidir uma nova concessão de limite.
Ignorar esse comprometimento anterior ao aprovar uma nova linha de crédito tende a aumentar a inadimplência mais à frente, argumenta Pedro Magalhães. Entender como o endividamento já existente molda o comportamento de compra virou parte essencial tanto da estratégia comercial quanto da análise de crédito de qualquer instituição financeira no país.

