O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues chama atenção para um dado do Ministério da Saúde que costuma surpreender: cerca de 10% dos novos casos de câncer de mama no Brasil ocorrem em mulheres acima dos 75 anos. A informação ganha peso porque o rastreamento ativo no SUS vai até os 74 anos. Depois dessa idade, a mamografia não deixa de existir, mas passa a depender de uma decisão individual, que envolve ganhos e limites diferentes dos observados em mulheres mais jovens.
Por que os programas definem um limite de idade
Os programas de rastreamento são desenhados para a população, e não para cada pessoa. A faixa etária é escolhida onde o equilíbrio entre benefícios e efeitos indesejados é mais favorável. Após os 74 anos, os grandes estudos que sustentam o rastreamento incluíram poucas participantes, e as evidências sobre redução de mortalidade são mais limitadas.
O motivo central é o tempo. O benefício da mamografia aparece anos depois do exame, já que o tumor detectado precocemente teria levado algum tempo para causar sintomas ou ameaçar a vida. Quanto menor a expectativa de vida, menor a chance de a paciente usufruir desse ganho. A idade cronológica, sozinha, diz pouco; duas mulheres de 78 anos podem ter condições de saúde completamente diferentes.
Quando continuar o rastreamento faz sentido
Mulheres com boa saúde geral, sem doenças graves associadas e com expectativa de vida longa podem se beneficiar da continuidade dos exames. Uma senhora de 76 anos, ativa e independente, tem perspectiva de muitos anos pela frente, e um tumor descoberto cedo ainda pode ser tratado com cirurgia menos extensa.
O histórico também conta. Segundo Vinicius Rodrigues, quem fez mamografias regulares ao longo da vida e tem exames anteriores disponíveis oferece ao radiologista uma base de comparação valiosa, o que torna a leitura mais precisa e reduz convocações desnecessárias.
Quando encerrar pode ser a melhor escolha
Em mulheres com doenças graves, fragilidade importante ou expectativa de vida reduzida, o exame tende a acrescentar mais riscos do que benefícios. Um achado suspeito leva a novas imagens, biópsias e, eventualmente, tratamentos que podem ser difíceis de tolerar, sem ganho real em tempo ou qualidade de vida.
O sobrediagnóstico também pesa mais nessa idade. Parte dos tumores encontrados cresce tão devagar que não causaria problemas ao longo da vida da paciente. Tratar essas lesões expõe a mulher a cirurgia e medicamentos sem que haja benefício correspondente.
Uma conversa que precisa acontecer
A decisão não deve ser tomada pelo calendário nem pelo hábito. O ideal é que a paciente, a família e o médico conversem sobre o estado de saúde atual, os riscos de um eventual tratamento e as preferências de cada mulher. Algumas preferem manter os exames pela tranquilidade que oferecem; outras escolhem encerrá-los após entender os limites.
Na visão de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, a conversa deve ser revisitada periodicamente, porque a situação de saúde muda com o tempo. Uma decisão adequada aos 75 anos pode precisar de ajuste aos 80.
Parar o rastreamento não é parar o cuidado
Encerrar a mamografia periódica não significa ignorar as mamas. Qualquer alteração percebida, como nódulo, retração da pele ou do mamilo e secreção com sangue, deve ser avaliada sem demora, em qualquer idade. Diante de sinais assim, os exames deixam de ser de rastreamento e passam a ser de investigação diagnóstica.
O exame clínico das mamas nas consultas de rotina também segue importante. Conforme pondera Vinicius Rodrigues, a idade avançada pede um cuidado mais individualizado, em que cada exame é indicado pelo benefício que pode trazer àquela mulher, e não apenas pela regra geral.

