Todo segundo domingo de outubro, Belém se transforma, e Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, enxerga no Círio de Nazaré um dos exemplos mais completos de como uma romaria pode reunir devoção, identidade regional e expressão artística. A procissão que acompanha a imagem de Nossa Senhora de Nazaré pelas ruas da capital paraense mobiliza uma multidão que chega de diversas partes do Pará, do Brasil e do exterior. Mais do que um evento religioso, a celebração movimenta a cidade durante semanas e envolve gerações inteiras de famílias.
Uma tradição reconhecida como patrimônio
O Círio de Nazaré é celebrado há mais de dois séculos e se consolidou como uma das maiores manifestações católicas do planeta. Pela importância histórica e cultural, a festividade foi registrada pelo Iphan como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2004 e, anos depois, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O reconhecimento evidencia que a romaria ultrapassa o campo da fé e integra a memória coletiva do país.
Na interpretação de Daugliesi Giacomasi Souza, o título de patrimônio ajuda a explicar por que o Círio desperta interesse até em quem não é católico. A festa reúne música, culinária, artesanato, arquitetura religiosa e rituais transmitidos de pais para filhos, formando um conjunto cultural raro. Compreender a romaria em todas essas camadas permite enxergá-la como uma expressão viva da identidade amazônica.
O que a corda representa para os romeiros?
Entre os símbolos mais marcantes do Círio está a corda que acompanha a berlinda, estrutura onde a imagem da santa é conduzida durante a procissão. Milhares de romeiros disputam um espaço junto a ela, muitas vezes descalços e sob forte calor, como forma de pagar promessas ou agradecer graças alcançadas. O esforço coletivo dá à corda um significado que vai muito além de sua função prática.

Daugliesi Giacomasi Souza argumenta que a corda sintetiza a dimensão coletiva das romarias brasileiras, em que a fé individual se manifesta lado a lado com milhares de outras histórias pessoais. A imagem de uma multidão unida pelo mesmo objeto traduz a força comunitária do evento. Ao mesmo tempo, a intensidade da experiência reforça a importância de cuidados com hidratação, calçados e saúde para quem participa.
Artesanato, cor e sabores que contam a história do Pará
O Círio também é uma vitrine da cultura material paraense. Os brinquedos de miriti, feitos artesanalmente a partir da palmeira de mesmo nome, colorem as ruas durante a festa e se tornaram um dos símbolos visuais da celebração. Fitas, enfeites, fachadas decoradas e oratórios montados nas casas compõem uma paisagem que transforma a cidade em um grande cenário de devoção.
À luz do que propõe Daugliesi Giacomasi Souza, esse universo visual merece atenção especial de quem trabalha com decoração e criação, porque revela como cores, materiais regionais e técnicas tradicionais podem construir identidade. A mesa farta do almoço do Círio, com pratos como o pato no tucupi e a maniçoba, completa o quadro e mostra como a festa atravessa também o espaço doméstico das famílias.
Turismo religioso e o desafio de preservar a essência
O crescimento do turismo religioso tem levado cada vez mais visitantes a Belém no mês de outubro, o que movimenta a economia local, a hotelaria, o comércio e os artesãos da região. A expansão do público, porém, traz desafios ligados à organização, à segurança e à preservação do caráter espiritual de uma celebração que nasceu da devoção popular.
No diagnóstico de Daugliesi Giacomasi Souza, o futuro do Círio depende do equilíbrio entre acolher novos visitantes e manter vivas as tradições que dão sentido à festa. A fundadora da DGdecor sustenta que conhecer a história da romaria antes da viagem transforma o turista em participante mais consciente, capaz de respeitar os rituais e valorizar a cultura amazônica que se revela em cada detalhe.

