Líder trabalhista deixa o cargo após pressão interna e ascensão do rival Andy Burnham; sucessão deve ser definida até setembro
O primeiro-ministro britânico Keir Starmer anunciou, na manhã desta segunda-feira (22), sua renúncia ao cargo e à liderança do Partido Trabalhista. O anúncio foi feito em um pronunciamento diante da residência oficial em Downing Street, em Londres, depois de uma reunião com o rei Charles III. “Todas as decisões que tomei foram pensando em colocar o país que amo em primeiro lugar. É por isso que renunciarei à liderança do Partido Trabalhista”, afirmou Starmer durante o discurso.
A saída chega menos de dois anos depois de uma vitória histórica dos trabalhistas, que encerrou uma década de domínio conservador no Reino Unido. Com a decisão, o país se prepara para ter seu sétimo chefe de governo em apenas dez anos, um sinal claro da instabilidade política que marca o cenário britânico desde o referendo do Brexit. A pergunta que move o noticiário internacional agora é outra: o que, de fato, levou Starmer a essa decisão e quem deve assumir o comando do governo nos próximos meses?
Os motivos por trás da renúncia
A queda de popularidade de Starmer não aconteceu de uma hora para outra. Segundo relatos da imprensa britânica, o premiê vinha sofrendo pressão crescente para deixar a liderança há meses, em um processo que se intensificou depois de maus resultados do Partido Trabalhista nas eleições locais e regionais realizadas em maio. Naquela ocasião, os trabalhistas perderam espaço significativo para o partido de extrema direita Reform UK, liderado por Nigel Farage, o que abalou ainda mais a confiança interna na gestão de Starmer.
O estopim final veio na semana passada, quando Andy Burnham, ex-prefeito da Grande Manchester e principal rival interno do premiê, venceu de forma contundente o candidato do Reform UK no distrito de Makerfield. Essa vitória garantiu a Burnham uma cadeira na Câmara dos Comuns e, com ela, a força política necessária para desafiar Starmer diretamente pela liderança do partido. Burnham já havia sinalizado a intenção de disputar o comando do Labour, e sua eleição foi vista como o sinal definitivo de que teria o apoio necessário entre os parlamentares trabalhistas para forçar uma disputa interna.
De acordo com o jornal britânico The Observer, Starmer já havia chegado à conclusão, no sábado (20), de que sua posição não era mais sustentável, depois de conversas com ministros do gabinete, assessores, doadores e líderes sindicais. O primeiro-ministro reconheceu, em seu discurso, a pressão vinda de dentro do próprio partido. “A questão que meu partido faz agora é se sou a melhor pessoa para nos conduzir à próxima eleição geral. Ouvi a resposta do meu partido parlamentar e a aceito com humildade”, disse.
Como deve funcionar a sucessão
Apesar de anunciar a renúncia, Starmer afirmou que pretende permanecer no cargo até que o processo de escolha de seu sucessor seja concluído, garantindo assim uma transição de poder mais tranquila. As indicações para a disputa pela liderança do Partido Trabalhista devem começar em 9 de julho, e qualquer candidato precisará reunir o apoio de pelo menos 20% dos parlamentares trabalhistas, o que equivale a 81 deputados, considerando que o partido tem hoje 403 cadeiras na Câmara dos Comuns. A expectativa é que um novo líder esteja definido até o retorno do Parlamento, em setembro.
Andy Burnham é apontado, até aqui, como o favorito entre os militantes do partido para assumir o posto. Outros nomes como Wes Streeting, ex-ministro da Saúde, e Al Carns, ex-secretário de Estado das Forças Armadas, também haviam manifestado interesse na disputa, mas Streeting já anunciou que vai apoiar Burnham em vez de concorrer. A repercussão da renúncia também chegou aos Estados Unidos: o presidente Donald Trump, que enfrentou atritos recorrentes com Starmer ao longo do último ano, comentou o episódio em sua rede social, misturando votos de boa sorte com críticas às políticas migratória e energética do governo britânico.
No mercado financeiro, a notícia já provocou reação imediata. A libra esterlina caiu e os custos de empréstimo no Reino Unido subiram ligeiramente nesta segunda-feira, refletindo a incerteza dos investidores diante da troca de comando em um momento ainda sensível para a economia britânica, marcada pelos efeitos do Brexit, da pandemia e dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.
A renúncia de Starmer fecha um capítulo curto, mas turbulento, à frente do governo britânico. Eleito em 2024 com a promessa de uma “renovação nacional”, o premiê deixa o cargo reconhecendo o desgaste acumulado, mas também destacando o que considera avanços em áreas como saúde, defesa e direitos trabalhistas. Para o eleitor britânico, a sucessão promete dominar o noticiário político nas próximas semanas, com o nome de Andy Burnham surgindo como a aposta mais forte para liderar o próximo capítulo do Partido Trabalhista.
Fontes consultadas: ISTOÉ, Jornal de Brasília, Público
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

